Cores Primárias - Brasília despede-se da mostra retrospectiva de Maria Bonomi
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Brasília despede-se da mostra retrospectiva de Maria Bonomi

Escrito por Margarida Nepomuceno. Posted in Exposições

Em maio parte dessa mostra irá para
a Maison de l´Amérique Latine, em Paris

 

                          Quem pensa em encontrar na mostra de Maria Bonomi , no CCBB de Brasília, uma retrospectiva cronológica de suas obras vai se deparar com uma concepção curatorial que busca em todo percurso cênico estabelecer uma relação intrínseca desde as suas primeiras xilogravuras produzidas na década de 50, até as matrizes de madeira, que deram origem as obras monumentais, instaladas em sua maioria, em locais públicos de São Paulo. Daí o título escolhido por Jorge Coli, curador da mostra: “Bonomi, entre a gravura e a arte pública”. O evento é patrocinado pelo Ministério da Cultura, Banco do Brasil e CESP, Companhia  Energética de São Paulo e contou com a produção executiva da Equipe Atelier Maria Bonomi e da 4Art Produções Culturais de Brasília.

                           Os referenciais cronológicos estão presentes à medida que o observador circula pelos diversos espaços expositivos do Centro Cultural, espaços internos, nas salas, e externos, onde se encontram, por exemplo, a escultura de elementos naturais denominada de “7 Horizontes do homem”,  ou o conjunto de homens de lata de alumínio com chapéus feitos de vidro de garrafas cujo título é “Metempsicose”, criação de 1996, ou ainda as esculturas gravadas em alumínio da série “Amor inscrito”, de 2010.

                           Ao lado do Bistrô, são exibidas imagens das obras monumentais da artista, já conhecidas pelos paulistanos, como o painel de concreto da Igreja da Cruz Torta, localizada no bairro de Pinheiros; as obras da fachada do Clube Sírio Libanês; as placas de concreto do Hotel Maksoud, o painel de alumínio e latão do Palácio dos Bandeirantes, além  de imagens de “Futura Memória”, de 1989, e “Etnias, do primeiro e sempre Brasil”, de 2008, painéis de cimento que remetem a história e a origem dos povos latino americanos, criados especialmente para o Memorial da America Latina, também na capital paulista. O vídeo exibe ainda imagens da “Epopéia Paulista”, painel instalado na Estação da Luz, “Construção de São Paulo”, instalada no metro Jd. São Paulo, além de outras grandes obras denominadas como arte pública.

                           Junto com a apresentação do vídeo estão expostas as matrizes de madeira que deram origem às obras criadas para espaços públicos que por sua dimensão e volumetria são extremamente reveladoras da linguagem crua, objetiva e pouco “glamorosa” da gravura, termo utilizado pela própria artista. Madeiras sobrepostas, pregos e colas oferecem ao público a oportunidade para que  se conheçam as várias etapas da produção de uma gravura, escultura ou painel público, e  as relações existentes entre as obras e suas origens.

                          Para Maria Bonomi, a gravura nasce “dentro da madeira” e não “sobre o papel, declaração que atesta a importância que ela dá a estrutura de madeira que dá origem a gravura, em papel, alumínio ou cimento, centrada na madeira. Na verdade, o que se revela percorrendo o espaço expositivo é que todo o seu trabalho, ou quase todo, com exceção das ilustrações e óleos, é originário da matriz em madeira : desde as primeiras gravuras, dos trabalhos na década de 50, reunidos no núcleo expositivo denominado  “Panorama”, como também as obras de cunho social e político dos anos 70, agrupadas em “Calabouço” e expostas na sala circular inferior do Centro Cultural ou ainda em “Útero”, espaço no piso superior que reúne gravuras e esculturas referentes ao universo feminino, tais como a série de esculturas Paris Rilton, ou a série de gravuras Medusa.

                          Em todos os espaços expositivos onde estão concentrados os 250 trabalhos da artista, a temática diversifica-se, mas a preocupação curatorial revela o mesmo cuidado em evidenciar a importância que a artista estabelece entre as matrizes e a obra finalizada.

                          Boa parte dos trabalhos expostos já é conhecida do público de outras exposições, mas muitas desses trabalhos são inéditos, como os primeiros feitos já na década de 40 – caso das ilustrações para Cobra Norato, de Raul Bopp e as pinturas à óleo “Fugindo da Escola”, de 1950; “Menina”, de 1946, ou “Meu Atelier”, de 1952). Diversas esculturas foram produzidas especialmente para esta mostra. O conjunto desses trabalhos, entretanto, dispostos lado a lado em núcleos conceituais, reunidos para mostrar a trajetória da artista, e, fundamentalmente, a reflexão sobre a relação indissolúvel entre a criação e a execução, ou “engenho e manejo”, como define Jorge Coli, foi uma escolha específica e oportuna para esta ocasião. 

 

Alguns trechos de um depoimento de Maria Bonomi, de 2010, e do texto de apresentação do catálogo “Criação Incessante”, de Jorge Coli, que revelam a estrutura de sentido das obras expostas bem como fundamentam a escolha curatorial da presente mostra.

Maria Bonomi

Sobre a importância do uso da madeira

“Até hoje, de preferência faço xilogravura. Acho que a madeira oferece a questão do direto, criação da coisa diretamente. No metal e na pedra, você faz através do ácido, vai, volta, retorna. Tem esse lado laboratorial que te distancia muito do resultado. Mas, ao mesmo tempo, ele enriquece muito o resultado, porque você vai somando coisas que, na madeira, são muito mais limitadas. Você tem o corte, você tem o cheio e o vazio. Você trabalha respirando o material.”

Sobre a técnica e a existência de uma matriz mental

“A questão é como lidar com os fatores inesperados da gravura. É o conflito da matéria com a idéia. Você sabe que um fator inesperado pode ser introduzido no trabalho, na medida em que você já tem em mente alguma coisa. (...) A gravura, enquanto resultado, se refere ao mundo visível, perceptível pela retina – e também pelo tato. Mas, enquanto conceito, enquanto idéia, ela se conclui totalmente em nossa mente. Com isso, estou quase chegando a dizer que há uma matriz mental e há uma matriz realizada. Nós as transpomos para um terceiro suporte, através da técnica, uma materialidade que era mental, que era uma verdade nossa, que era uma imagem anterior ao que se fez. Assim, realizar uma gravura é, antes de mais nada, ter uma idéia gráfica. É possuir valores gráficos, antecedendo à sua materialidade”.

“Criação Incessante”, de Jorge Coli

Sobre o processo de gravação e a questão dos gêneros na poética da artista

“O ato gravador de Maria Bonomi é feito de liames, de laços, de passagens, que não respeitam ou se acomodam em definições de gênero artístico. A palavra ponte (título de uma de suas últimas obras) exprime bem a idéia de travessia entre margens de outro modo inacessíveis. Encontramos o caráter primordial dessa arte entre as formas impressas no papel e na enorme parede, entre os talhes da madeira e do ciemento, entre a superfície e o relevo, entre a gravura e a arte pública.

É assim que gravura, na obra de Maria Bonomi, nunca significa apenas uma técnica. A artista cria, de fato, um universo de contínua expansão. Nele, tudo se interliga, se responde, se sustenta. Ele existe graças ao formidável poder inventivo próprio da artista”.

Sobre as obras criadas para o espaço público

“De todos os modos, o destino público das obras de Maria Bonomi está marcado. Por uma razão simples. É a seguinte: suas obras instauram o espaço que a envolve, definem o lugar em que estão. Impõem seu entorno. Metamorfoseiam o lugar em que se situam. Criam a própria atmosfera ma qual se envolvem. Expandem-se em aura. Isso provém de que, nelas, tudo é essencial. Foram banidos quaisquer detalhes agradáveis ou ornamentais, para atingir a austera plenitude de uma forma poderosa e decisiva”.

 

 

Serviço
Bonomi – Da Gravura à Arte Pública De 12 de outubro à 8 de janeiro
SCES, Trecho02, lote 22.
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Fone (61) 31087600
CCBB- Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília
Imagens
Assessoria de Imprensa CCBB,Assessoria de Imprensa Atelier Maria Bonomi e Assessoria de Imprensa  A4 Comunicação, em São Paulo.