Cores Primárias - Torres Garcia: geometria, criação, proporção
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Torres Garcia: geometria, criação, proporção

Escrito por Margarida Nepomuceno. Posted in América Latina

Da Arte Mediterrânea
ao centro de seu próprio universo latino-americano

 

                      Os paulistas terão ainda uma semana (até 26 de fev) para ver na Pinacoteca de São Paulo, as 150 obras que compõem a mostra denominada “Geometria, criação, proporção”, que fazem parte de um período de trinta anos de criação do uruguaio Torres Garcia.  A exposição, em cartaz desde o dia 3 de dezembro é resultado de um projeto que envolveu a Fundação Iberê Camargo, sediada em Porto Alegre - onde esteve aberta ao público por dois meses-, a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu Torres Garcia, de Montevidéu. São obras que representam um período importante da trajetória do artista uruguaio, de 1913 a 1943, definidoras do que ele denominaria a partir da década de 20 de  Universalismo Constructivista. 
 
                       Ler e ver são partes da mesma obra
 
 
                 O acervo exposto compreende as principais pinturas desse período, além de esculturas, aquarelas, brinquedos de madeira, estudos de obras, estudos de afrescos, colagens feitas em jornais, e uma farta documentação de seus escritos-descobertas de si mesmo, que fundamentam seu lugar e suas escolhas dentro do campo da arte. Alguns dos escritos são preciosidades que não foram publicadas. Permanecem em estado original, manuscritos, tais como Raison et Nature, de 1932, e, Ç´ava, de 1928. Esses manuscritos são exemplares de que para o artista, palavras, imagens e grafismos compõem uma só linguagem e por essa razão devem apresentar-se inseparáveis: “Ler e ver se conectam numa mesma obra”, disse certa vez. São brochuras escritas a mão costuradas com linhas ou cordões rústicos deixando à vista, de maneira proposital, uma maneira de fazer artesanal e primitiva, para demonstrar que é possível para um indivíduo qualquer , mesmo o mais envolvido com as novidades gráficas da modernidade, voltar a ter o domínio completo do processo de comunicação, desde a criação até a sua apresentação.
 
                     Tal qual os brinquedos de madeira, que ocuparam durante anos a sua produção, os livros “de artista”, as colagens, os suportes construídos com sarrafos e as esculturas, são objetos que remetem a um processo manual, detalhado, planejado passo a passo, e cuidadosamente  sentido. A mostra é testemunho, sobretudo, da busca incansável do artista por desvelar a natureza humana, em sua essência, e pelo combate a mediocrização do contemplativo. E isso está presente desde a sua inserção na Arte Mediterrânea, vide seus estudos para os afrescos destinados ao Salón San Jorge – presentes na mostra -, até a adesão absoluta ao Universalismo Construtivo.
 
                     Segundo a crítica de arte Maria Lucia Kern, o Construtivismo de Torres Garcia é a junção entre o experimentalismo constante que marcou a sua obra e a reflexão, através dos textos, manifestos e livros, do seu próprio processo de criação. Explica a historiadora:
 
“Essas atividades são concomitantes e iniciadas durante a sua estadia em Barcelona (1892-1920), apesar de a historiografia ter enfatizado que o contato, em Paris, com Theo Van Doesburg ( 1928) e Piet Mondrian ( 1929) foi motivador das mudanças de sua linguagem. Esses artistas são importantes para o amadurecimento de suas pesquisas, ainda que não seja impossível ignorar o seu processo anterior de elaboração e de formulação de conceitos”.
 
                   Foi na Espanha, com pouco mais de 15 anos, que o artista inicia a sua trajetória, com uma breve formação acadêmica. Posteriormente vincula-se ao Cercle Artistic de Sant Lluc, aproxima-se da literatura e filosofia e trabalha como ilustrador de várias revistas. No início de 1900, frequenta o cabaré El Quatre Gats, que reúne os artistas catalães, inclusive Picasso, de onde surge o Noucentisme, ou Novicentismo, com a aspiração de criar uma arte especificamente catalã.
 
              Seu interesse pela arte africana, exemplificado na mostra pelas pinturas de 1926-1928 (algumas sem título) e pelas máscaras é explicado pelo artista no texto Décadence et primitivisme, de 1928, onde ele declara ser necessário ir além das novas formas apresentadas pela arte primitiva, e compreender  “as funções rituais, espirituais e a integração da linguagem com o universo” ( Kern, 2011). E o uso da geometria é o recurso utilizado pelo artista para descartar qualquer possibilidade de narrativa que confunda o olhar do sentido transcendental da obra. Para o pensador frances André Malraux, Torres Garcia estabeleceu a primeira ponte entre as artes da América pré-colombiana e a arte universal ( Castillo, 1994)
 
                    Artista pensador
 
 
              Torres Garcia é um dos artistas que mais produziram escritos não somente sobre as suas próprias experiências, mas sobre concepções que devem nortear a produção da arte  em geral. Depois da volta ao Uruguai, em 1934, já com 60 anos de idade, o artista divide as suas atividades criativas com uma verdadeira campanha educativa proferindo conferências (somam-se, ao que parece, 500), fazendo programas de rádio, ministrando aulas nas universidades uruguaias, escrevendo e “desenhando” livros e artigos.
 
              Cada manuscrito, cada texto produzido – mesmo os ideográficos-, são acompanhados de reflexões, e não necessariamente de respostas, às inúmeras inquietações que permearam a sua trajetória: foi assim com Augusta et Augusta, El descubrimiento de si mismo, Dialegs, New York: impresiones de un artista. Em 1929, cria com outros artistas em Paris, o Circle et Carré, e consegue reunir em torno desse movimento, dezenas de artistas das várias vertentes construtivistas. Escreve inúmeros artigos na revista de mesmo nome, consolidando o processo construtivo na arte. Volta para a Espanha e escreve Arte Constructiva. Em 1934, depois de 43 anos morando na Europa, Torres Garcia volta a Montevidéu e funda a Associação de Arte Construtiva, retomando a circulação da revista Circle et Carré que recebe o título espanhol de Circulo y Cuadrado. É dessa fase os escritos Historia de mi vida, Metafisica de la prehistória indoamericana e o artigo Estructura. Em Montevidéu dedica-se a fazer palestras, compilando-as ao final da década de 40 no livro Mistica de la Pintura(1947) e La recuperación de lo objecto(1948). É dessa mesma década um de seus principais textos, pelo qual hoje a sua obra é vinculada, o livro  Universalismo Constructivo (1944). Sempre com imagens, seguindo a sua convicção, a que nos referimos anteriormente, de que texto e imagem se completam e devem permanecer juntos.Uma de suas últimas atividades como artista intelectual foi editar a Revista Removedor.
 
                  No Uruguai, o Universalismo Construtivo
 
 
              Muita  coisa mudou na obra de Torres Garcia ao retornar à sua terra: a arte construída com formas geométricas definidas e pinceladas de cores fortes, ou seja, a produção construtiva iniciada em Paris junto a uma geração de artistas, vai dando lugar a um esmaecimento da cor, até chegar basicamente nos tons terra e nos tons escuros do cinza, do ocre, do azul, culminando com a supremacia da linha estrutural. Entretanto, a  busca pela essência da natureza humana, como também por regras( geométricas) que fossem capazes de afastar o individuo da contemplação plástica passiva, continua até o fim.
 
               Alejandro Diaz, um dos curadores da mostra assim define essa passagem: “(...) na obra em Montevidéu a pincelada tenderá a desaparecer. O Construtivismo passará para a Arte Construtiva Universal, com a tendência de deixar de ser pintura de cavalete buscando ser pintura mural e monumental”, ou ainda, como definiu Nelson Aguilar, uma “pintura-escultura”.
 
              Para Torres Garcia é na estrutura que se enraíza a criação, e essa ideia, segundo Castillo, está na base do Universalismo constructivo, seu grande aporte teórico, e pelo qual é reconhecido pela História da Arte,como fundador. Assim se expressa o crítico:
 
“A constante busca da trama que une no criador intuição e a razão, “ordem vital e ordem racional”, classicismo e modernidade, levou Torres a uma elaboração teórica das mais originais jamais realizadas na primeira metade deste século. Sua concepção estética-humanista aparece em escritos hoje fundamentais para a compreensão, não apenas para nos aproximarmos de sua obra como também do processo das vanguardas”.
 
                Novo realismo planejado e universal
 
 
              Para o artista uruguaio, a América Latina deveria construir uma arte própria, inédita, um novo realismo, planejado com objetividade e fundamentalmente genuíno, sem cópias da arte europeia, sem folclorismos. Ou seja, o artista defendia uma nova mentalidade na arte, com um eixo, ou direção, centrados no universo cultural latino americano. Seu desejo, defendendo a arte construtiva, era de que ela fosse “ uma contribuição à unificação da arte e da cultura americanas”. Uma arte simples, quase anônima, para todos. Também por isso universal.
 
              Desde a criação das academias e instituições de arte dos países da América Latina, a produção artística seguiu modelos e padrões do chamado centro europeu. As próprias academias, normalmente vinculadas ao poder público, facilitavam o contato dos artistas aspirantes com as obras dos mestres já consagrados (ler mais neste site: http://www.coresprimarias.com.br/ed_4/academia_julian_p.php), por meio de bolsas de estudos ou prêmios de viagens. Esse era o procedimento comum para quem aspirava ser artista: espelhar-se nos centros culturais (e econômicos) hegemônicos. Com os movimentos modernistas desencadeados de forma diferenciada nos diversos países da região, e os processos de confirmação das independências políticas no início do século XX, a construção de uma arte referenciada na própria cultura, que firmasse uma identidade própria, passa a ser discutida ( e vivida) pelas vanguardas artísticas locais, muito embora, os modelos hegemônicos continuassem a disputar espaço com um incipiente conjunto de padrões locais, ainda em fase de construção.
 
              Torres Garcia tem um papel fundamental na definição de novos padrões, artísticos e ideológicos, de valorização da tradição cultural dos povos da America Latina, da descoberta do genuíno, do próprio, do identitário. Em 1943, criou o símbolo do que para ele representaria a Escuela del Sur, o mapa invertido da América do Sul, desenhado acima da linha do equador: “O nosso norte”, escreveu, “é o sul”. 
 
              Nesse mesma página, pode-se ler alguns dos pontos importantes do manifesto que definiu, desde 1935,  a escola ideal defendida e propagada na América por Torres Garcia, a Escola do Sul.
 
 

SERVIÇO
Joaquín Torres Garcia- geometria, criação, proporção
Curadoria: Alejandro Diaz e Jimena Perera 
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 2 São Paulo
Fone: 11 3324 1000
Até dia 26 de fevereiro
Imagens: Divulgação e
Book Collection (http://www.flickr.com/photos/migueloks/sets/72157612059835488/ )

 

Referências
Dawn Ades. Arte na América Latina. Cosac e Naify. São Paulo, 1997.José Castillo. Vanguarda e Classicismo. Catálogo da 22ª Bienal Internacional de São Paulo. Fundação Bienal de São Paulo, 1994.
Joaquín Torres García- Geometria, criação, proporção. Catálogo mostra do mesmo nome ( jan/fev 2012). Fundação Iberê Camargo; Pinacoteca do Estado de São Paulo e Governo do Estado de São Paulo. 2010/2011.
Maria Lucia Kern. Joaquin Torres Garcia- a arte como lugar da utopia e do mito. In Joaquín Torres Garcia- Geometria, criação, proporção.
Pintura del Sur. Fundação FINAMBRÁS. Grupo Velox. Argentina, 1967