Cores Primárias - Aprendizado e decepção no México
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Aprendizado e decepção no México

Escrito por Cores Primárias Pesquisa. Posted in Resenhas

Arte e política aproximam Manuel Álvarez Bravo e Tina Modotti

Fotografia de Tina Modotti

 

          Quando Álvarez Manuel Bravo e sua esposa Dolores despediram-se da fotógrafa Tina Modotti (1896-1942) na estação de trem da Cidade do México, para uma viagem que a levaria a ficar exilada do país por 10 anos, o fotógrafo mexicano por certo não imaginou que sua trajetória estaria ligada, desse momento em diante, às vanguardas artísticas e políticas do México. Foi pelas mãos de Tina, conforme seu depoimento no Excelsior,  que Bravo ficaria conhecendo seus mais famosos clientes. Os primeiros de muitos que surgiriam posteriormente a Diego Rivera, Siqueiros e Tamayo.

          Naquele 24 de fevereiro de 1930, entretanto, compartilhou com a esposa, a despedida dramática de Tina que abalada com os últimos acontecimentos políticos no México, que resultou na sua expulsão pelos órgãos políticos, disse a Bravo: “ Creio e espero voltar a vê-lo, mas em outro México e em condições menos amargas do que estas”. Segundo a pesquisadora Christiane Barckhausen Canale,  Bravo declarou que foi com a aquisição das máquinas e do material fotográfico de Tina  é que ela teria conseguido viver os primeiros anos na Europa, depois de exilada. A expulsão abrupta daquele país marca o início do fim de sua trajetória como fotógrafa e intensifica o seu compromisso com um projeto político de combate aos regimes totalitários que estavam se instalando na Europa (o nazi-fascismo e depois o franquismo),  e pelo fortalecimento dos princípios que haviam levado a Rússia a fazer a sua revolução.

          Na Europa, produziu alguns trabalhos para revistas alemãs, como a AIZ e a Arbeiterfotograf, participou de exposição dos Fotógrafos Operários ( na 2ª edição, em 1930), mas fundamentalmente, torna-se uma vigorosa militante política atuando em várias frentes do Socorro Vermelho Internacional, vinculado ao Partido Comunista,  em países como a  Alemanha, Holanda, Viena, Paris, Espanha – onde atuou na Guerra Civil Espanhola -, e na Rússia, onde residiu por alguns anos. Voltou ao México somente em finais de 1939, ainda como estrangeira” indesejável”.

 

          Tina Modotti havia sido incriminada pelo atentado contra o presidente mexicano recém  eleito, Pascal Ortíz Rubio, em 5 de fevereiro de 1930, e, embora a autoria do crime tivesse sido esclarecida, o governo mexicano de Elías Calles ( 1924-1930) aproveitou  o clima de comoção popular para iniciar uma ampla caça aos comunistas. Foi um período difícil para muitos intelectuais e lideranças políticas européias e latino-americanas que residiam no México, desde os tempos do  governo liberal democrata de Álvaro Obregón. Tina Modotti só voltaria a residir legalmente no México após a revogação de sua expulsão  assinada por Lázaro Cárdenas em 1940, dois anos antes de sua morte. Entretanto, de 1923  até sua expulsão, a fotógrafa italiana pode conviver estreitamente com os principais artistas da época e com lideranças políticas que empenhavam-se em assegurar um governo que pautava-se nos princípios populares remanescentes da revolução mexicana de 1910. Esteve perto de Diego Rivera, José Clemente Orozco, David Alfaros Siqueiros, e Xavier Guerreiro. Inicialmente, como artística fotógrafa ao lado de Edward Weston, e posteriormente como militante do PCM- Partido Comunista Mexicano-, e como dirigente da Frente Anti-fascista.

          Como fotógrafa, seu trabalho revelou interesse imediato pelos costumes, pela vida cotidiana dos indígenas e do povo simples mexicano, e não deixou de acompanhar de perto parte das produções dos muralistas e demais artistas mexicanos.

 
Tina Modotti
 

          Não havia, especialmente nos primeiros anos da década de 20, nenhuma separação entre o meio artístico e o político: os artistas estavam comprometidos com um projeto político, basta lembrar a relação entre eles e o Ministro da Educação, José Vasconcelos. Por outro lado, os políticos ou lideranças estrangeiras, exiladas ou estabelecidas temporariamente no México, necessitavam do apoio, da acolhida e da intermediação dos artistas locais junto às forças do país. Basta lembrarmos de alguns nomes de líderes internacionais que foram acolhidos no México, como Trotsky e o cubano Julio Antonio Mella, ambos assassinados no próprio país, Augusto C. Sandino, da Nicarágua, e tantos outros. 

        El Machete, criado por Siqueiros em 1924, resume o espírito de colaboração entre artistas, intelectuais e políticos nesse momento de exaltação e proximidade entre o México e a Rússia. Tina Modotti participa dessa publicação como fotógrafa, como tradutora de textos do PC Internacional,  e também como articulista.

          O conflito entre dedicação à arte ou à política, acompanha Tina Modotti o tempo todo. Apesar de seu trabalho como artista começar a ter certa notoriedade em revistas e publicações estrangeiras, seus compromissos políticos aprofundavam-se, vindo a testemunhar e muitas vezes a participar de diversas campanhas lideradas pelos dirigentes locais. Tinha posições bem definidas, em relação, por exemplo à ligação dos artistas com o governo mexicano. Especialmente depois da ascensão de Elias Calles, que em 1924 assume a presidência sucedendo Álvaro Obregón, e inicia uma fase de distanciamento dos princípios da Revolução e proximidade com a política de Washington. Muitos líderes locais e estrangeiros foram mortos e perseguidos, inclusive seu companheiro, Mella, ou foram expulsos do país. Já a caminho da Europa, após a sua expulsão,  Modotti escreve uma carta à revista peruana, Amauta, importante publicação dos marxistas, fundada e dirigida por José Carlos Mariátegui, expondo a sua profunda decepção com os rumos políticos do México. Publicada posteriormente na edição de número 29, Tina defende-se da acusação que sofrera e denuncia os crimes e perseguições desencadeados pelo governo Calles:

          “ Depois de ter vivido sete anos na República do México e ter provado meu interesse e minha simpatia por aquele povo, com meu trabalho fotográfico, vocês concordarão que eu poderia ter ao menos alguns dias, para organizar meus assuntos pessoais, (...). Mas o mais grave, triste e vergonhoso é a capitulação dos políticos mexicanos ante o imperialismo ianque: prova disso, são as perseguições ferozes ao PC, a prisão e assassinato de todos os migrantes políticos estrangeiros que lá procuraram refúgio, iludidos pelo nome revolucionário desse país, do qual hoje só resta a lenda ...”

          A história de Tina Modotti, seu percurso artístico e político, sobretudo como militante ardorosa contra o fascismo vem sendo contada não só pela História da Arte,  uma vez que ela trouxe contribuições para a fotografia moderna, como pela historiografia dos movimentos da esquerda mundial. A pesquisadora alemã Christiane Barckhausen-Canale  escreveu o mais completo itinerário, até o momento, da artista-militante. “No rastro de Tina Modotti”, editado pela Alfa-Omega, no Brasil, recebeu em 1988 o Prêmio Casa de las Américas. O livro levanta uma extensa documentação desde o nascimento da fotógrafa, em Udine, na Itália, sua origem operária, a passagem como atriz do cinema mudo em Hollywood, até a sua ida ao México, país que a colocaria diante de um outro universo, onde a arte só faria sentido se reafirmasse sentimentos e certezas de profundas transformações da sociedade. Impelida a escolher entre um e outro, por suas próprias convicções, Tina abraçou a militância partidária, engajou-se nos movimentos de solidariedade internacional e abandonou a arte,  acreditando que não daria para conciliá-la com a prática política.

          “No rastro de Tina Modotti”, a autora mostra em diversos momentos a relação de Tina com o fotógrafo Manuel Álvarez Bravo. Em um deles, já de volta ao México, onde viveria os dois últimos anos de sua vida, Tina foi visitar Bravo em seu estúdio. Assim ele descreve essa passagem:

          “ A companhia tocou, eu fui abrir e lá estava Tina! Então, conversamos um pouco, e eu lhe disse: Olha, você gostava tanto de trabalhar com a Graflex ....tenho aqui uma câmara dessas e também um quarto escuro, você não quer voltar a ... . Mas ela só disse, com uma tristeza indescritível na voz: Não Manuel, agora não quero mais”.

 
 

Bibliografia:
BARCKHOUSEN-CANALE, Christiane. No Rastro de Tina Modotti. Coleção Esta América. Editora Alfa- Omega, São Paulo, 1989.
Documentação exposta da mostra Fotopoesia, de Manuel Álvarez Bravo ( IMS/Rio de Janeiro)