Cores Primárias - Guerra e Paz - Parte III
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Guerra e Paz - Parte III

Escrito por Margarida Nepomuceno. Posted in Exposições

Portinari resiste à doença:

"Não posso mais pintar" ... "estou proibido de viver"

                        O Salão de Atos Tiradentes, no Memorial da America Latina, abriga os dois painéis, o da Guerra e o da Paz, ambos de frente um para o outro. Cada um tem 14 metros de altura por 10 metros de largura e são compostos por 28 placas de madeira naval, com 2,2 metros de altura por 5 de largura, pesando 75 quilos cada. Recursos cenográficos e áudio visuais valorizam cada um dos detalhes das obras, chamando atenção para a relação de cada “cena”, ou “personagem” , pintados por Portinari  com os conceitos elaborados  por ele sobre a guerra e a destruição , bem como sobre a paz e a solidariedade mundial. 

 

                   No espaço da Biblioteca Latino Americana, um sistema de projeção de audiovisuais está disponibilizado ao público que pode ter acesso ao conjunto da obra completa do artista , cerca de 5 mil obras, reunidos já alguns anos para o Catálogo Raisonné.

                              Os estudos preliminares feitos por Portinari para os painéis,  compõem uma mostra à parte. Estão na Galeria Marta Traba e junto com os vídeos, contam muito sobre as  origens do próprio Projeto Guerra e Paz, bem como sobre o processo de produção dos painéis pelo artista.  São cerca de 100 trabalhos, entre desenhos em grafite, aquarelas e óleos que pertencem a acervos de particulares do Brasil e de alguns países. Completam a exposição dezenas de cartas e documentos fotográficos e jornalísticos, que vistos na sua totalidade, revelam o pensamento da sociedade brasileira, artistas, políticos e intelectuais diante do significado que encerra para o Brasil, representar-se permanentemente na ONU, por uma obra cuja dualidade temática encerra a própria razão de existência desse organismo internacional.

                             Pela documentação presente, são reveladas a luta de Portinari contra os males da intoxicação de tintas, as internações em hospitais e a sua resistência em não parar de pintar até que os painéis sejam finalizados. Quando ainda fazia os estudos preparatórios para os painéis, em 1952, os médicos proibiram Portinari de pintar para impedir o avanço do processo de envenenamento das tintas que já estava em curso. “Não posso mais pintar” e “Estou proibido de viver”, foram as expressões de resistência de  Portinari, ditas em 1954, dois anos após ter iniciado a pintura dos painéis.

                     Polêmica sobre suposto abandono dos painéis

                   Os registros mostram ainda, as tensões diplomáticas que se seguiram, entre Brasil e EUA, antes da colocação definitiva dos painéis no saguão principal da sede da ONU. Esse episódio, provocado pelo suposto “abandono” dos painéis de Portinari nos armazéns de um dos portos de Nova York, provocou um estremecimento das relações diplomáticas de ambos países, uma vez que as autoridades brasileiras e a sociedade de artistas e intelectuais  acreditavam que havia um descaso imperdoável das autoridades norte americanas em não providenciar prontamente, a remoção e instalação de tais painéis. Periódicos da época, do Rio de Janeiro e de São Paulo, tais como “Ultima Hora”, noticiavam o que parecia ser uma ofensa à sociedade brasileira: “A deteriorização de Portinari é uma afronta aos artistas”, dizia a manchete de 11 de abril de 1957. Escrita por Inácio de Loyola, com fotos de Manuel Rosa, a notícia da conta da indignação de artistas e intelectuais diante do que presumiu-se por abandono dos painéis, durante meses seguidos.

                   Após serem retirados dos armazéns, novas manchetes denunciavam que os painéis estavam sendo cortados para que coubessem no lugar para o qual foram destinados. Serraram os painéis de Portinari? Absurdo! Diziam as manchetes. O escritor Rubem Viana declarou que uma obra de arte não poderia ser talhada e se os EUA continuassem  a destratar as obras de Portinari, perderiam o respeito e admiração dos brasileiros. O pintor Francisco Rebollo, representando os artistas paulistas, um dos entrevistados, considerou também afronta a atitude de descaso dos norte-americanos: “É uma ofensa aos artistas brasileiros e a Nação”, afirmou.  Lima Barreto também declarou-se indignado: “ Portinari é tudo o que gostaríamos que os EUA fossem: compreensíveis e inteligentes”.

                    Na verdade, Portinari já previa que a metragem dos painéis poderia dar alguma diferença na hora da colocação. Afinal, desde os anos 30 Portinari já vinha realizando trabalhos em murais ou em telas, para espaços públicos e em grandes dimensões. Por esse motivo deixou em branco  uma considerável faixa na parte inferior dos painéis , para que fossem ajustados na estrutura montada. A polêmica, ao menos, revelou uma sociedade atenta e orgulhosa de um dos seus filhos mais ilustres.

                   Em 8 de setembro de 1957, finalmente, na sessão de abertura anual dos trabalhos da ONU, na presença de 81 países representados, a visitação dos painéis foi aberta ao público. 

Galeria do artista

Guerra e Paz está no Memorial da America Latina desde 7 de fevereiro deste ano e ficará até dia 20 de maio, próximo final de semana.
A visitação vai de terça a domingo, das 9h às 18h.
Av. Moura Andrade, 664
Metro Barra Funda
São Paulo- Capital