Cores Primárias - Guerra e Paz - Parte IV
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Guerra e Paz - Parte IV

Escrito por Sabina Uribarren. Posted in Exposições

Novas técnicas no restauro

identificaram os traços primários de Portinari

 
Sabina Uribarren*
especial para Cores Primárias
 
    
Acervo Virginia Motta
 
                Os trabalhos de restauração dos painéis Guerra e Paz orientados por Edson Motta Junior,  fizeram parte de um projeto mais amplo que contemplou também a análise científica dos materiais e técnicas dos painéis  através de um convênio de cooperação com o LACICOR, Laboratório de Ciência da Conservação da UFMG. Foram realizados registros do estado da obra, de forma a criar arquivos fotográficos da mesma. 
                 O uso de raios x, infravermelhos e ultravioletas permitiram identificar as cores utilizadas e os traços primários de Portinari cuja revelação colaborou para a tomada de decisões de restauro.
                 Como já foi mencionado anteriormente (Guerra e Paz II), os trabalhos de restauro foram realizados na  sede do Ministério da Educação do Rio de Janeiro por uma equipe de 18 restauradores que se dedicou tanto a recuperação da ordem cromática da obra quanto a sua limpeza e a fixação de áreas descoladas.
                O trabalho de limpeza e restauração de cor foi realizado com pequenos retoques em áreas arranhadas ou com desbotamento persistente. Resinas especiais importadas dos Estados Unidos e da Inglaterra solucionaram o problema do desbotamento decorrente da exposição dos painéis à luz natural: recuperaram a tinta ao substituir o óleo presente na composição do material. Também foi acrescentada uma espécie de “filtro solar” aos painéis para protegê-los dos raios ultravioletas. 
                 Até finais de 2010, a obra não tinha passado por nenhum tipo de restauro desde sua instalação e apresentava um estado relativamente bom de manutenção, segundo Motta.
 
 
                 Tradição em restauro
 
 
   
Edson Motta Jr.
 
 
                 Edson Motta Jr. já vem de uma larga experiência em restauro. Filho de Edson Motta (1910-1981) reconhecido restaurador, pintor e professor de restauração, chefe do Setor de Recuperação de Obras de Arte do SPHAN até 1976, Motta Junior dedicou-se desde cedo às atividades de restauro no ateliê do pai, com o qual recebeu os primeiros ensinamentos. Formou-se em História pela Universidade Federal Fluminense em 1978, fez mestrado em História da Arte na Escola de Belas Artes da UFRJ e doutorado no Curso de Conservação e Restauração de Patrimônio Pictórico da Universidade Politécnica de Valencia, na Espanha. Dedica-se a atividades docentes desde 1979, quando ingressa como professor na Escola de Belas Artes.
                 Realiza trabalhos de restauro e consultoria para instituições públicas e privadas, destacando-se entre seus trabalhos os executados para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o Palácio Pedro Ernesto e o Teatro Municipal do Rio de Janeiro onde restaurou o Pano de Boca pintado por Eliseu Visconti. Restaurou ainda as pinturas de Henrique Bernardelli e Rodolfo Amoedo, entre outras.
                  Um dos motivos pelo qual a escolha da coordenação da equipe de restauro recaiu sobre Edson Motta, conforme esclareceu João Cândido, é o fato de que o profissional compõe a Comissão de Autenticidade das Obras de Portinari, responsável por decidir questões de autoria das obras do artista. 
 
"Preservamos as marcas deixadas pela passagem do tempo"
Entrevista
Edson Motta Junior
Coordenador da equipe de restauro de Guerra e Paz
 
Sabina Uribarren- Quais foram as principais concepções que orientaram a intervenção nos painéis Guerra e Paz de Candido Portinari?
 
Edson Motta Jr.- Sempre nos guiamos pelo respeito a sintaxe formal escolhida pelo artista, ou seja, respeitamos a maneira como este organiza as cores, formas, volumes texturas etc. mas também preservamos as marcas deixadas pela passagem do tempo, contanto que estas não interfiram na leitura formal e iconográfica da obra. Quando necessário decidimos nossas estratégias de intervenção a partir da analise dos materiais que constituem as obras assim como os produtos da deterioração destes. O restauro dos painéis Guerra e Paz se baseou em analises feitas pelo LACICOR/ UFMG.
 
S.U. -Quais foram os objetivos e prioridades da intervenção?
 
E.M.J.- Os objetivos relacionados a integridade formal das obras se resumiram a remoção da espessa camada de fuligem e poeira acumulada sobre a superfície de tinta durante as décadas nas quais a obra permaneceu na sede da ONU em Nova York e a reversão do desbotamento de algumas áreas de cor contendo um tipo de pigmento branco reativo.
Também nos preocupamos com a proteção da tinta dos efeitos adversos da luz e para isso aplicamos sobre as áreas mais sensíveis um filtro para ultra – violeta.
 
S.U.- Houve a intenção de devolver a obra a um estado original, o mais próximo possível do resultado obtido por Portinari entre 1952 e 1956, ou se pensou em considerar a obra de arte ela mesma como documento, com as marcas do passar do tempo e deterioro sofrido, por ex.?. Tomou-se uma ou outra decisão, ou se realizou uma ação que contemplou as duas questões?
 
E.M.J.- Os painéis do Portinari foram tratados como obras de contemplação artística e não como documentos históricos. Procuramos devolver a obra sua capacidade integral de cativar e deslumbrar o observador. Mas é claro que respeitamos todas as alterações indicativas da passagem do tempo menos aquela poucas marcas, como perdas e manchas, que criavam um ruído prejudicial a leitura plena e desimpedida da beleza das obras.
 
S.U.- O exame da obra e os trabalhos realizados permitiram vocês detectar alguma característica particular do método de trabalho do Portinari, especificamente sobre a concepção e execução dos painéis?.
 
E.M.J.- Sem duvida. Foi um prazer ver como a habilidade e talento de um artista se traduz em uma execução pictórica tão rápida e segura. Poucas vezes tive a oportunidade de ver um trabalho pintado de forma tão segura e confiante. Os painéis foram executados “alla prima”, ou seja, diretamente e sem muitas sobreposições ou hesitações. O desenho subjacente e o primeiro preenchimento com tintas, lançado sobre os painéis por seus assistentes era incrivelmente preciso e formou um guia confiável para a pintura do mestre.
 
S.U.- Existiram especificidades da obra que determinaram ações concretas de restauro (pigmentos utilizados, base material, médios, técnicas)?
 
E.M.J. - Os painéis são sólidos e bem construídos porem, um dos pigmentos usado, um tipo de branco de titânio, provocou o clareamento excessivo de algumas áreas de cor. Neste caso, foi possível a completa reversão da alteração. Alem disso, um pigmento orgânico vermelho desbotou discretamente o que não afetou a belíssima e audaciosa ordem cromática das pinturas.
 
S.U - Poderia especificar quais as mudanças físicas e químicas que sofreram os painéis no decorrer do tempo?
 
E.M.J.- Todas as tintas feitas com óleos ficam mais transparentes e escuras com o tempo; as tintas de Portinari não são exceção. Alem disso, elas endurecem e não acompanham mais o movimento de expansão e contração da madeira compensada sobre o qual foram pintadas e, em decorrência disso, as pinturas apresentam hoje uma rede de delicados craqueles.
 
S.U.- Existiu um trabalho de restauração dos painéis ou deveríamos falar mais apropriadamente de um trabalho de conservação dos mesmos?
 
E.M.J.- Algumas medidas, como a de proteção com vernizes/ filtros para reduzir os danos provocados pela luz são de conservação interventiva; já outras, como a recuperação de boa parte da ordem cromática original são de restauração.
 
S.U. - Como se realizará a realocação dos painéis em Washington, são previstas mudanças no controle ambiental do espaço de exposição?
 
E.M.J. - Os arquitetos responsáveis pela reforma dos espaços nos prometeram que as medidas necessárias, como o controle dos níveis de umidade e de luz seriam tomadas e mantidas com o rigor museológico adequado.
 
S.U.- Uma vez reinstalados em Washington, existe alguma intenção de fazer um acompanhamento para analisar a evolução da intervenção?
 
E.M.J.- Seria bom se pudéssemos avaliar as obras periodicamente, mas confiamos muito na equipe de curadores da ONU e acreditamos que eles serão excelentes guardiões das obras.
 
S.U.- Os trabalhos de exame, avaliação, documentação e ações concretas sobre a obra, podem ser considerados material importante para futuras ações, e para a formação de equipes interdisciplinares dedicadas aos cuidados das obras de arte em geral. Planeja-se disponibilizar esta experiência para consulta de que maneira? 
 
E.M.J. - Planejamos uma publicação para um futuro próximo mas ainda estamos na fase de planejamento. Os profissionais envolvidos na restauração tiveram uma excelente oportunidade de aprendizado e acho que todos estão, agora, mais preparados e experientes para enfrentar projetos dessa envergadura.
 
S.U. - Na década de 1970, seu pai o restaurador Edson Motta, foi um dos primeiros em restaurar trabalhos do Portinari. Nesses mais de 40 anos que separam essas restaurações dos trabalhos nos painéis Guerra e Paz, quais idéias identificam uma e outra época.
 
E.M.J. - O que aproxima as duas épocas é o respeito e a admiração pela obra de Candido Portinari e o amor por essa profissão que une técnica, arte e habilidade. O que separa as duas eras  são as mudanças de técnicas e materiais usados no restauro de pinturas.
 
*Arquiteta, doutoranda em História da Arquitetura e Urbanismo pela FAU/USP

Galeria do artista

Guerra e Paz está no Memorial da America Latina desde 7 de fevereiro deste ano e ficará até dia 20 de maio, próximo final de semana.
A visitação vai de terça a domingo, das 9h às 18h.
Av. Moura Andrade, 664
Metro Barra Funda
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