Cores Primárias - O que não tem fim nem começo, revela um tempo circular entre a tradição e o contemporâneo
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O que não tem fim nem começo, revela um tempo circular entre a tradição e o contemporâneo

Escrito por Da Redação. Posted in Exposições

 

 

" Pulso", Maria Nepomuceno, 2012. Fundação Eva Klabin, Rio de Janeiro. Foto Mario Grisolli.
 
 
                 Desde suas últimas individuais na Victoria Miro, em Londres, com a instalação The Force, e na Bienal de Esculturas de ARTZUID, em Amsterdam, ambas em 2011, as  esculturas de Maria Nepomuceno procuram ultrapassar os espaços delimitados para as mostras das galerias e seguir uma lógica espacial própria. Quase sempre o desenho de suas instalações aproveita-se dos recursos oferecidos pela arquitetura  con-formando-se ou estendendo-se para espaços alternativos que pouco tem a ver com o que denominamos, ou denominávamos, até pelo menos a década de 70, de espaço expositivo.  Leia também nesta edição artigo de Renata Puig sobre a formação das casas-museus, no Rio de Janeiro.
 
                Suas esculturas não rivalizam com os objetos que encontra pelo caminho, ao contrário, envolve-os. Invadem os espaços com seus tentáculos de cordas e contas coloridas, ocupando frestas, alcançando as paredes, preenchendo vazios. Há um espaço organizado, previamente articulado entre os corpos artesanalmente moldados, que estabelecem nexos entre as cerâmicas, as cordas, as esferas, o sisal e as contas. Mas, há outro espaço construído a partir da interação dos trabalhos com a arquitetura local que resulta numa valorização e redimensionamento da obra de Maria. Obra aberta. Para a escultora é possível desdobrar a sua obra, ampliá-la, estendê-la, complementá-la, reconstruí-la e reinventá-la, no momento imediato à sua aparente conclusão.
 
                É assim que se apresentam seus trabalhos na atual mostra denominada Pulso, na Fundação Eva Klabin, no Rio de Janeiro, tanto no ambiente interno da Casa-museu, quanto externo, em torno do lago e das árvores, no jardim construído por Burle Max. 
 
      
Pulso - Maria Nepomuceno, 2012. Fotos Mario Grisolli.
 
 
                Em sua 15ª edição, Marcio Doctors, disponibiliza a casa onde residiu Eva Klabin, para o trabalho da carioca Maria Nepomuceno e da mineira Sara Ramo, dentro do Projeto Respiração que visa, entre outras coisas, aproximar os fazeres artísticos contemporâneos a um espaço já sacralizado como depositário de um significativo acervo de obras de arte, objetos e mobiliário, colecionados pela eminente anfitriã.  
 
                Que diálogos poderiam ser estabelecidos entre as ações das artistas e a ambiência da Casa-museu, tão reveladora das tradições do bom gosto e das Belas Artes de sua colecionadora, e de concepções expositivas tão íntimas e particulares? Que relações poderiam ser estabelecidas entre a Sala Renascença, por exemplo, repleta de objetos dos períodos Renascentistas e Barroco ou mesmo, na mesma sala, entre as antiguidades  gregas, egípcias ou pré-colombianas e as esculturas complexas de Maria, com seus dutos multiformes tecidos com cordas e contas coloridas, suas esferas acrílicas, suas estruturas cerâmicas? Ou ainda, que trocas poderiam haver entre a poética do cotidiano de Sara Ramo e a imponente cama do Barroco italiano, assentada na tapeçaria Giovanni Romanelli, do século XVII, no quarto de dormir de Eva Klabin?
 
                O que não tem fim nem tem começo, conceito definido pelo curador para essa edição, não parece propor diálogos que revelem semelhanças ou dissemelhanças entre os fazeres artísticos contemporâneos e a ambiência da Casa-museu, nem tampouco construir discursos por demais evidentes de “diferenças democráticas”. Procura o curador valorizar e identificar processos de diferenciações entre concepções do fazer artístico, como também criar possibilidades de experimentação de novas ações, mesmo que resultem depois de finalizadas, num aparente deslocamento de tempo e espaço.
 
                Para o curador a proposta da mostra é “(...) a de radicalizar aquilo que de fato já acontece no Projeto Respiração: querer surpreender ou identificar, a partir das intervenções dos artistas, o processo de diferenciação, que é a chave do fazer artístico e que nos possibilita aproximar de um substrato metafísico não transcendental, que dá a espessura do existir. Ao enfatizar a Casa-museu de Eva Klabin como plano de experiência, a relação sujeito-objeto é desmistificada, evidenciando a ação e a percepção como os elementos capazes de criar localizações no real que revelem a especificidade daquele que é singular. O processo da arte se trata disso”.
 
                Em recente congresso de Estudos andinos realizado na Universidade de São Paulo, analisou-se a produção simbólica entre diferentes povos pré-colombianos, sobretudo, nas antigas terras do Perú. Tanto os objetos produzidos como a cerâmica, quanto os rituais e as memórias preservadas, dão conta da existência de um pensamento ameríndio extremamente complexo, onde o tempo representado não é linear, definido por períodos historicamente determinados. Os ameríndios pensavam (e agiam) dentro de uma concepção de tempo circular, pois acreditavam que o passado não se encerra, está vivo no tempo presente e que as divindades renascem resignificadas sob novas formas de expressividade. Nos rituais, por exemplo, na comida, na música, no vestuário, na cerâmica e na natureza. Tudo pode renascer em Pachamama.
 
                De certa forma, essa mostra trabalha dentro da mesma concepção de tempo circular, onde não há fim nem começo. Os tempos não se confrontam. Como as formas circulares e as espirais coloridas de Maria.  
 
 

Galeria do artista

 

Serviço
Projeto Respiração
15ª Intervenção de Arte Contemporânea no Acervo da Fundação Eva Klabin
O que não tem fim nem tem começo.
Marcio Doctors, curador.
Pulso. Maria Nepomuceno
Fotos: Mario Grisolli
Penumbra. Sara Ramo
Até 1º de julho de 2012.
Avenida Epitácio Pessoa, 2480- Lagoa
www.evaklabin.org.br
Rio de Janeiro
(21) 32028550