Cores Primárias - Museus-casas “cariocas”
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Museus-casas “cariocas”

Renata Guimarães Puig 

Especial para Cores Primárias

É preciso explicitar o modo como a sociedade em questão traça a fronteira entre o visível e o invisível. A partir daí, é possível compreender o que é significante para uma dada sociedade, quais os objetos que privilegia e quais são os comportamentos que estes objetos impõem a colecionadores. (POMIAN, 1984, p.53)

 

Sala Renascença, Fundação Eva Klabin, Rio de Jeneiro
 
 
                         Nem sempre os museus foram instalados em edifícios específicos. A história da arquitetura dos museus, concebida como construção, especialmente destinada para esse fim, inicia-se no século XVI, com a construção dos Uffizi, em Florença, por Vasari (ROJAS, 1979, p.21). Por vezes eram palácios que tinham servido de residência e foram adaptados à sua nova função de museu. O exemplo mais característico é o Museu do Louvre, em Paris, antigo Palácio dos Reis de França. Nesses casos, foi geralmente necessária uma severa adaptação para equilibrar o respeito devido ao edifício e às exigências de uma instalação moderna. 
                         De acordo com Paulo de Freitas Costa, “O ato de colecionar acompanha as sociedades humanas desde o homem pré-histórico, que produzia não apenas utensílios para uso cotidiano, mas também objetos esculpidos e pinturas rupestres de uso contemplativo. Desde então, se evidenciava uma busca de imortalidade pela produção e reunião de obras capazes de ultrapassar os limites do tempo e da vida. Nas culturas da Antiguidade continuaram a ser produzidos e reunidos esses objetos de caráter transcendental, onde se acumulavam em templos, santuários e tumbas”. (COSTA, 2007, p.27) E, nesse contexto, no Brasil, surgem na década de 30 e mais tarde em 1990, as Fundações Casa de Rui Barbosa e Eva Klabin, no Rio de Janeiro, respectivamente, referências pela importância de suas coleções. 
 
Fundação Eva Klabin, o mundo dentro de sua casa
                         Nasceu do desejo da colecionadora Eva Klabin (1903-1991) de legar o precioso acervo reunido ao longo da vida à cidade do Rio de Janeiro. Paulistana e primeira filha dos imigrantes lituanos Fanny e Hessel Klabin (fundador das indústrias de papel e celulose Klabin), que ainda tiveram Ema e Mina. O hábito de colecionar herdou do pai, grande apreciador de peças de prata. 
 
                         A Fundação foi criada um ano antes do falecimento de sua idealizadora e, oficialmente aberta ao público em agosto de 1995. Comprada por Eva Klabin em 1952, a casa que abriga a Fundação data de 1931, sendo uma das primeiras residências da recém-urbanizada Lagoa Rodrigo de Freitas. Suas dimensões eram modestas e seu estilo normando foi um modismo da época. Ainda em 1952, Eva e seu marido, o advogado e jornalista Paulo Rapaport, encomendaram um projeto ao arquiteto italiano Gaetano Minnucci, que apresentou soluções dentro do espírito clássico, porém a ideia de demolir a casa original para construir uma nova não foi levada adiante. 
 
                         No início dos anos 60, já viúva e sem filhos, Eva Klabin fez uma grande reforma de ampliação na casa, adaptando-a para receber a coleção que crescia a cada dia. A reforma, entregue a uma conceituada firma de engenharia carioca, durou sete anos, período em que Eva instalou-se em seu apartamento na Avenida Atlântica, no Leme. 
 
                         De gosto eclético, Eva voltou-se para a Antiguidade clássica, com ênfase sobre o Renascimento italiano. Sua coleção distribuiu-se pelos diversos ambientes da casa-museu que, por vontade da colecionadora, permaneceram como ela os deixou. Cada um deles guarda a sua marca e o nome por ela escolhido. 
 
                         Cultivava rodas de amigos entre boêmios e artistas, oferecendo jantares após a meia noite. Em suas viagens dedicou-se à procura de obras de arte que ampliariam sua coleção. Adquiriu peças em antiquários paulistas e cariocas, e também em reputadas casas de Roma, Paris, Londres, Zurique, Viena, Madri ou Barcelona e outras tantas arrematadas nos leilões de Buenos Aires, Londres e Nova York. O fascínio pelo Oriente resultou em viagens ao Japão, à China, à Birmânia, à Tailândia, à Índia, à Indonésia e a Singapura, durante as quais raros e belos objetos foram adquiridos e, hoje, constituem o núcleo oriental da coleção. 
 
                         Parte do ambiente social está integrado à natureza pelas vidraças voltadas para o jardim decorado na década de 1970, por Jorge Simões, com cortinas pretas e paredes laqueadas de vermelho - cor dos templos e palácios chineses. 
 
                         Seu quarto de dormir é grandioso e, apesar da decoração mais leve, tem uma intensidade garantida pelo contraste da cama barroca e dourada com o tom suave de cinza-azulado das paredes e pela presença imponente e delicada do grande cartão de tapeçaria.
 
                         O jardim se apresenta como patrimônio paisagístico de Roberto Burle Marx, na década de 1960. Em 2002, com o apoio da Fundação Vitae, também sofreu uma intervenção e encontra-se renovado para a fruição do visitante.
 
 
 
 
Museu-Casa de Rui Barbosa, retrato de uma época. Rio de Janeiro
                         A Casa de Rui Barbosa está localizada em um lote de uma das antigas chácaras de Botafogo que, no século XIX e primeiras décadas do século passado, era o bairro preferido da aristocracia. Em estilo neoclássico está situada no meio de um amplo jardim. 
 
                         O imóvel que hoje abriga o Museu-Casa de Rui Barbosa foi construído em 1850 por Bernardo Casimiro de Freitas, o futuro Barão de Lagoa e, foi residência de Rui e sua família por 28 anos, até 1923. Em 1924, um ano após sua morte, o governo comprou o prédio, a biblioteca, o arquivo e, quatro anos mais tarde, o mobiliário. 
 
                         Em 13 de agosto de 1930 o presidente Washington Luís inaugurava-a como o primeiro museu-casa do Brasil, homenageando seu antigo líder político. Baiano, Rui Barbosa é um dos personagens mais conhecidos da história do Brasil. Ganhou prestígio como orador, jurista e jornalista e estudioso da língua portuguesa, presidiu a Academia Brasileira de Letras após a morte de Machado de Assis. Cuidou pessoalmente da decoração da casa, que demonstrava a forte influência européia. Objetos e móveis trazidos das suas viagens somavam-se aos objetos adquiridos nos famosos magazines da cidade, como Mappin & Webb, Loja América e China. 
                         A decoração interior traduziu o ecletismo que dominou as artes no Brasil no final do século XIX e início do XX, como reflexo de uma sociedade em transformação. Ela é, provavelmente, a mais antiga construção remanescente da primeira ocupação do bairro de Botafogo. 
 
                         Rui Barbosa tinha 46 anos quando se mudou e estava casado há 19, com D. Maria Augusta e tinha cinco filhos. A casa já contava com água encanada, quente e fria. Durante os anos em que a família lá residiu, foi recebendo melhorias que denotavam os progressos tecnológicos do período: o sistema de iluminação foi adaptado para utilização de luz elétrica, em substituição ao gás domiciliar e possuía telefone.
 
                         A distribuição dos compartimentos ilustrava como eram as residências da alta burguesia carioca da época, com espaços reservados à vida social (parte frontal da casa) e à rotina doméstica. A casa compõe-se de dois corpos ligados entre si por uma saleta e uma sala em forma de passadiço, tendo estas, saleta e sala, dez janelas de peitoril e portadas de cantarias de volta perfeita. 
 
                         O corpo da frente está retirado da rua, é assobradado com um segundo pavimento. O corpo dos fundos é levantado em sobrado, e tanto este como o da frente, são construídos em pedra e cal, divididos em salas, quartos, corredores e outras acomodações. O terreno possui jardim, horta e pomar, parreiral sobre vergalhões de barrões de ferro, vasos, figuras e bancos de jardim.
 
                         Algumas das características do neoclassicismo são evidentes na fachada da casa, como o frontão triangular com decorações em baixo-relevo, os vãos em arco pleno e as platibandas ornamentadas por esculturas. Quando da transformação da casa em museu, cada um dos aposentos foi batizado com o nome de momentos marcantes da vida pública de Rui. 
 
                         O museu transformou seus espaços interiores para receber um público ativo aos estímulos, à interação (com as exposições) e também ao consumo (livrarias, cafeterias, restaurantes, lojas, etc.). Sua relação com o exterior, a rua, transformou-o em um dos lugares públicos e turísticos mais característicos da cidade contemporânea, apresentando funções básicas, como: preservar (aquisição de bens culturais), investigar (documentação) e comunicar (ações que dialoguem com o público). 
 
                         Desde o século XIX, o museu se consolidou como a nova instituição pública, foi a partir da década de 1980 e até os primeiros anos do século XXI, que ocorreram mudanças nos museus, com novas tipologias – museu-casa/ casa-museu (abrigo e preservação). 
 
                          Esses museus respeitam a organização de seus interiores como aconteceu no período histórico no qual foram habitadas. Assim, a maior parte deles não pode abrigar exposições espetaculares com superproduções. Enquanto espaços privilegiados de preservação, estudo e divulgação da memória, a musealização de espaços residenciais convoca um magnetismo próprio que os distingue dos museus restantes. Essa tipologia difere entre si, em tamanho, natureza, contexto cultural, político e social. No Brasil, residiram nessas casas artistas, políticos, colecionadores, que prestaram serviços ao país e tornaram-se referência para a população local, regional ou nacional.
 
                         A diversidade dos visitantes (com suas sensações, faixa etária, classe social, profissão) que procura esse tipo de museu é para adentrar num mundo que não é o seu. Desejam conhecer o prédio ou o patrono e sua intimidade, além do acervo. Por isso, a comunicação é importante, pois o museu torna-se um espaço para relações, sejam elas através das exposições, visitas monitoradas, publicações, pesquisas, novos recursos tecnológicos (vídeos informativos no museu, mostrando sua história ou, como propaganda), aperfeiçoamento dos mecanismos das reservas técnicas e sistemas de conservação dos espaços ou qualificação e formação técnica dos profissionais envolvidos. 
 
                         Um recurso positivo é o de multimídia para auxiliar na comunicação direta com os visitantes. Vídeos que contem a história da casa e formação do museu através de maquetes eletrônicas e pesquisa na instituição, não somente apresentar o museu pela visita monitorada; fazendo um, o complemento do outro. Exposições de artistas contemporâneos também são o novo foco dessa tipologia de museu, contribuindo para sua maior divulgação para a sociedade. 
 
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Referências Bibliográficas

COSTA, Paulo de Freitas. Sinfonia de objetos: a coleção de Ema Gordon Klabin. São Paulo: Iluminuras, 2007.
LOURENÇO, Maria Cecília França. Museus acolhem moderno. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
MONTANER, Josep Maria. Museus para o século XXI. Barcelona: Editorial Gustavo Gilli, S.A., 2003.
POMIAN, Krzysztof. Colecção. In: Enciclopédia Einaudi, v.1 (Memória-História). Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1984, p. 53.
ROJAS, Roberto; CRESPÁN, José Luis; TRALLERO, Manuel. Os Museus no mundo. Rio de Janeiro: Salvat Editora do Brasil, S.A., 1979.
http://www.evaklabin.org.br 
http://www.casaruibarbosa.gov.br